Por que as pessoas tiram fotos de outras sem que percebam?

Certa vez, Thomas Hoepker, fotógrafo alemão da Agência Magnum, recebeu uma pergunta semelhante.

Thomas respondeu “Se eu tivesse lhe pedido [permissão para tirar sua foto], eu não a teria – ou a foto seria uma mentira“.

Fotógrafo Thomas Hoepker.

Vamos analisar o que ele quis dizer com isso, sob dois pontos de vista.

Se pedir, não vou conseguir a foto

O primeiro é o de que, quando um fotógrafo vê uma cena se desenrolar à sua frente, não há tempo para pedir permissão à pessoa ou pessoas que estarão no registro. O momento decisivo dura menos de um segundo. Depois disso, ele desvanece e evapora, para sempre.

O outro ponto de vista, de que a foto seria uma “mentira”, pressupõe parar as pessoas para pedir-lhes permissão. Então, você gasta alguns minutos explicando e respondendo questionamentos e, por fim, diga “ok, volte para o que você estava fazendo e ignore a câmera — apenas aja com naturalidade!”.

O problema é que, depois de tudo isso, não há mais como “agir com naturalidade”.

Inevitavelmente começam a representar, fazem uma pose e se retratam do jeito que querem que as pessoas as percebam, não mais em um estado natural e relaxado.

Em outras palavras, perdeu-se completamente a espontaneidade.

É isso que Hoepker quis dizer, quando afirmou que a fotografia se tornaria uma mentira, ou seja, não é mais uma cena orgânica. A cena se tornou artificial.

O que o fotógrafo viu, já não está mais lá.

Para muitos, estes registros são inúteis, já que desprovidos de espontaneidade e honestidade. As pessoas se tornam marionetes, movem-se de maneira rígida e sem a emoção original — dolorosamente conscientes da câmera.

Já, para Henri Cartier-Bresson, que abordou a fugacidade do momento decisivo, “A fotografia não é como a pintura. Há uma fração criativa de segundo quando você está tirando uma foto. Seu olho deve enxergar uma composição ou uma expressão que a própria vida te dá, e você seguir a sua intuição quando der o clique. Esse é o momento em que o fotógrafo é criativo.” Este momento dura uma fração de segundo. Depois disso, estará perdido para sempre.

É por isso, que alguns fotógrafos não irão avisar ou pedir permissão antes de tirar a foto.

Quando você vê uma cena que daria um bom registro, simplesmente não há tempo para perguntar. A interrupção destruiria o momento decisivo e a fotografia não valeria mais a pena ser feita.

Há o meio-termo, em que o fotógrafo se senta e conversa com a pessoa, tema de seu trabalho, por algum tempo, para deixá-la à vontade. O registro é feito durante a conversa e, a depender da técnica, sem que a pessoa entrevistada perceba.

Neste caso, espera-se que o interlocutor esqueça a câmera, enquanto relaxa. E a foto sai, como se não houvesse fotógrafo ali.

Essa abordagem funciona em alguns cenários, em outros não. Dito isto, na maioria das vezes, capturar a emoção do momento decisivo e vulnerável, que resulte em um registro de impacto, que a gente nunca se cansa de olhar.

O ponto de vista de quem é retratado

Não são apenas fotógrafas(os) que gostam de registrar momentos cândidos. Muitas pessoas (como eu) preferem ser fotografadas desta forma.

Costumo gostar mais das fotos que amigas(os) fazem de mim, quando não estou prestando atenção nas suas câmeras. Tenho preferência por ser retratado em momentos sinceros e agindo com naturalidade.

Gosto de me ver do mesmo ângulo que as outras pessoas me vêm.

Sob o ponto de vista do documentário

Também precisamos falar de outra perspectiva importante deste assunto: a fotografia também tem um aspecto documental.

A fotografia de rua, não é a mesma coisa que fotografia documental, embora muitas vezes estes 2 ramos compartilhem algumas particularidades.

É comum, fotógrafos de rua terem o desejo de documentar as ruas e as pessoas da cidade. Para, daqui a 50 anos, quando alguém olhar para estas fotos ver “como as pessoas se vestiam, o que elas faziam, com elas andavam etc”

Não se trata de se esconder para tirar fotos, mas de passar despercebido para capturar uma situação real e orgânica.

A última coisa que o fotógrafo quer, é “alterar a cena”. Se você percebê-lo e, de alguma forma e “se ajeitar pra foto”, a espontaneidade acaba, como Hoepker explicou.

O que fazer, quando alguém está me fotografando?

O fotógrafo de rua, está capturando a cena, a rua, o contexto, um momento em um lugar. Não está fotografando você, em particular. Talvez isto fira os seus sentimentos, mas a fotografia dele, provavelmente, não é sobre você.

O ideal é ignorar e continuar fazendo o que você está fazendo. Se não quiser sair na foto, basta se virar ou sair do local por um minuto.

Como eu disse, a grande probabilidade é de que ninguém está realmente fotografando você.

Mas… e a minha privacidade?

Você tem ideia da quantidade enorme de câmeras públicas e privadas que temos hoje, em cima dos postes?! Já parou para olhar ao redor?!

Então, não seja aquele chato, valentão, que implica com o fotógrafo de rua. Isso é ridículo e, como já disse, ninguém está fotografando você, em particular.

Se fosse para obter uma foto sua, especificamente, sem você perceber, seria mais fácil e mais discreto usar um celular ou um smartwatch — ou uma action cam no capacete.

Jamais seja grosseiro(a) com uma pessoa que está sendo honesta com todo mundo ao redor, ao usar uma câmera dedicada para registrar um instante.

Se você realmente se preocupa com a privacidade, seria mais efetivo lutar para que os órgãos públicos removessem as câmeras da cidade e banissem drones e, principalmente, a detecção de face.

Posso pedir para que apague a minha foto?

Se você for uma pessoa educada, pode pedir o que quiser, sempre.

Apenas entenda, de antemão, que o fotógrafo não é obrigado a apagar uma foto. A lei está do lado dele(a). Se o profissional se sentir incomodado e resolver chamar a polícia, você irá passar vergonha, quando os guardas explicarem a lei para você.

Entenda, também, que a sociedade inteira sairia perdendo se cidadãos comuns ou profissionais da imprensa passassem a ser impedidos de documentar a cidade.

A fotografia de rua, como arte ou como profissão, é muito mais importante do que os nossos caprichos pessoais.

Se você se importa com a democracia, incentive e proteja a fotografia de rua e documental.

Elias Praciano

— fã de séries, como "Love, Death & Robots", "Rick and Morty" e "Russian Doll". Gosta de criar imagens, direto da câmera, com o mínimo de pós-produção. Há vários anos o seu livro favorito é Neuromancer, de William Gibson.

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