Como as lentes de cinema diferem das de fotografia

Muita gente pergunta se realmente há diferenças entre lentes projetadas para fotografia e as criadas para vídeo, além dos preços.

Além das diferenças de preços, há vários outros itens que se destacam, já que são ferramentas projetadas para uso em situações e condições diferentes entre si.

A maneira como se usa equipamentos de videografia difere bastante do uso dos equipamentos de fotografia. E isto influencia o projeto externo e a óptica interna das objetivas.

A disparidade nos preços

Eu gostaria de tirar logo este elefante do meio da sala. Muita gente se assusta, ao ver os valores “numéricos” dos equipamentos cine, isolados.

É importante dizer que os preços nominais, para os profissionais da videografia, não são relevantes, uma vez que este mercado se move majoritariamente em torno do aluguel dos equipamentos e não da compra.

Historicamente, é comum lentes anamórficas de cinema serem produzidas exclusivamente para o mercado de aluguel. As lentes da Panavision, por exemplo, oficialmente, nem podem ser compradas.

Diante disso, o custo do equipamento de filmagem, em uma produção de vídeo/cinema acaba se reduzindo a uma fração muito pequena do custo total do projeto.

Há um diferença muito importante aqui: enquanto fotógrafos profissionais detém a posse de todos os seus equipamentos de trabalho, os video makers não precisam carregar absolutamente entre a casa e o trabalho.

Via de regra, fotógrafos são donos de suas câmeras, lentes, flashes e todos os outros acessórios. Já um videógrafo pode exercer uma carreira inteira, sem nunca ter possuído uma única câmera ou lente.

Fotógrafos têm gastos (de tempo e dinheiro) para manter a sua parafernália, o que inclui a limpeza, o armazenamento adequado, despesas com seguros e transportes etc.

Se formos comparar custos, o TCO (Total Cost of Ownership, ou Custo Total de Propriedade) do equipamento fotográfico pode ser bastante alto. Portanto, não se iluda com os valores dos objetos nas vitrines das lojas — por que há muito mais por trás disso.

Conjunto de equipamento fotográfico, sobre uma mesa de madeira. O conjunto é composto de várias lentes, uma câmera e um flash.
Uma parte do meu kit de fotógrafo.

As engrenagens

As lentes cine frequentemente têm “engrenagens” ou “dentes” ao redor dos anéis de foco ou de zoom.

São feitas para encaixar em dispositivos de controle motorizados ou manuais, que permitem fazer ajustes suaves, dentro de um ritmo ou velocidade ajustável.

Na fotografia se favorece a instantaneidade. Mas, para vídeo, o ideal é o ajuste progressivo.

Foco manual

Os motores das lentes cine, são projetados para o foco manual e suave, como comentamos acima.

Por isso, o anel de focagem tem um curso maior e um movimento mais suave e consistente. Comumente, o curso total do anel ultrapassa os 200º, o que dá mais controle e precisão para uma focalização exata e suave.

Ao contrário das lentes de foto, as lente cine têm uma parada rígida para você saber que alcançou o final do curso do anel.

Marcações no corpo

Algumas lentes fotográficas possuem uma janela com uma escala de distâncias, que está caindo em desuso nas novas gerações de lentes.

Já, nas lentes cine este instrumento continua presente e é ainda mais preciso.

Outro aspecto externo é que o corpo da lente possui marcações de medidas de distância, que informam com clareza aonde a lente está focalizando em relação ao sensor ou ao plano do filme.

Uma vez que a operação de uma câmera, em um projeto de vídeo, costuma ser um trabalho de equipe, é possível ler as marcações tanto sob o ponto de vista de um canhoto quanto de um destro.

Visão em detalhe da lente Canon EF 17-40mm f4L USM, mostrando parcialmente a janela de escala de distância focal.
Detalhe da janela de escala da distância (à esquerda). Este item está cada vez mais em desuso nas lentes de fotografia, mas continua importante nas objetivas voltadas para vídeo. Saiba mais sobre o seu uso, na fotografia.

A íris é suave

A progressividade suave, é o que descreve o funcionamento de várias partes de uma objetiva cine. Na parte de trás, a abertura do diafragma é projetada para ser ajustada gradualmente, para não causar mudanças abruptas na luminosidade que chega ao sensor.

T-stops em vez de F-stops

Esta seria mais uma diferença de conceitos de medida das condições de luminosidade do que uma diferença física.

As lentes de cinema medem a exposição em t-stops em vez de f-stops. Conceitualmente, são a mesma coisa. A diferença é que um t-stop lida com a quantidade de luz que realmente está chegando até o sensor ou o filme.

Nas objetivas voltadas para a fotografia (lentes still), quando falamos em f/2.8, por exemplo, há variações entre um modelo de lente e outro.

Nas lentes cine, não há esta variação. O valor de t/2.8 significa exatamente a mesma coisa entre uma lente 50mm e uma 85mm. Principalmente se fizerem parte da mesma linha de produtos de uma marca.

Esta abordagem, dentro de um projeto de vídeo, previne ter que readequar todos os instrumentos de iluminação do set, só por que você trocou a objetiva.

Mesmo uma zoom, projetada para a fotografia, vai ter medidas inconsistentes, de uma distância focal para outra, na transmissão da luz até o sensor. Mas os fotógrafos conseguem lidar facilmente com isso. Geralmente, a câmera fotográfica faz o ajuste automático.

Já, durante uma filmagem, não é admissível ter ISO ou tempos de exposição inconstantes, dentro de uma tomada.

São projetadas em conjunto

As lentes de cinema são projetadas dentro de uma lógica de kit ou conjunto de ferramentas. Elas se complementam e têm o mesmo design.

Vamos pegar o exemplo das lentes Canon EF 50mm f/1.4, EF 85mm f/1.8 e 100mm f/2.8. Quando você olha para elas, vê claramente que fazem parte de um projeto ou de uma escola de design em comum.

3 objetivas prime da Canon: Da esquerda para a direita, Canon EF 100mm, Canon EF 85mm e Canon EF 50mm.
Da esquerda para a direita: Canon EF 100mm f 2.0 USM, Canon EF 85mm f 1.8 USM e Canon EF 50mm f 1.4 USM. Embora pertençam a mesma escola de design, estas 3 lentes possuem corpos e ópticas muito diferentes. Seria desafiador obter imagens consistentes, com este conjunto dentro de um projeto de vídeo.

Ainda assim, elas têm especificações (do f-stop) completamente diferentes. O anel de foco de uma, está localizado em posição divergente da outra, suas dimensões são totalmente discordantes etc.

Isso não acontece dentro de uma linha de lentes de cinema. Neste caso, a fabricante tem o cuidado de manter as dimensões iguais, os anéis e todos os outros instrumentos no mesmo lugar, a mesma taxa de transmissão de luz de uma para a outra etc.

Quando você está trabalhando com uma linha de lentes cine, qualquer que seja a marca, pode trocar uma lente 24mm por uma 85mm sem precisar fazer qualquer ajuste em qualquer instrumento presente no set de filmagem. Elas têm o mesmo tamanho e o mesmo projeto e se encaixam de forma imperceptível.

Isto poupa uma quantidade imensa de horas de trabalho (e custos) na edição, inclusive. Os cortes entre as cenas só é perceptível quando o(a) diretor(a) quer.

Câmera Canon EOS 6D mark II em frente a uma bolsa de couro da marca Black Hold.
Comportamentos diferentes: fotógrafos compram seus kits de trabalho e costumam carregá-los em bolsas chiques. Film makers não fazem isso.

As concessões na qualidade óptica

Há fabricantes que convertem projetos de lentes still para lentes cine. Na prática, nestes casos, basta alterar as carcaças e criar uma linha uniforme de objetivas.

Mas, quando falamos de um projeto desenvolvido “do zero”, o uso do equipamento tem grande influência aqui:

  • Fotógrafos costumam carregar seus equipamentos nas mãos. O uso de tripés ou outros tipos de suportes são as exceções.
  • Film makers têm o hábito de usar vários tipos de suportes, como tripés, gruas, steady cam, gimbals etc.

Os equipamentos para fotografia, têm projetos que priorizam a portabilidade.

Já, os equipamentos de vídeo têm mais liberdade para explorar mais as qualidades ópticas, mesmo que isso acarrete no aumento do tamanho e peso.

A própria resolução do vidro, não é uma prioridade no projeto de uma objetiva cine. Para filmar em 4K, você não precisa de mais do que 12 megapixels, por exemplo.

Já nas objetivas still, é necessário que o projeto preveja o uso em sensores de mais de 50 megapixels, atualmente.

As aberrações ópticas

As lentes cine são projetadas para combater algumas aberrações ópticas ou fenômenos físicos que as fotográficas não são.

Por exemplo, o focus breathing é um fenômeno que incomoda muito em um filme. Mas quase ninguém liga para isso na fotografia. Se caracteriza pela alteração do enquadramento (para mais aberto ou mais fechado) durante a focalização, como se você estivesse fazendo um zoom ao mesmo tempo. Isso dá a sensação de que a lente está “respirando” — daí, o nome: breathing.

Nas lentes cine, eliminar o focus breathing é uma das prioridades do design óptico.

Outro exemplo, na diferença óptica, é o flare, que é uma aberração óptica combatida ferozmente nos projetos de lente fotográfica. Já, em algumas linhas de objetivas cine a prioridade do projeto é justamente evidenciar e embelezar o flare.

A parfocalidade

Uma lente parfocal, é uma objetiva zoom que mantém o foco em um objeto, mesmo que você mude a distância focal dela.

Se, por exemplo, você tiver algo em foco aos 75mm e der um zoom para 300mm, o assunto ainda estará em foco.

É uma propriedade muito bem-vinda dentro de uma filmagem, mas não tem utilidade prática para fotógrafos. Não há problema nenhum fazer o foco novamente, antes de dar o próximo clique.

Ainda assim, há algumas lentes projetadas para a fotografia que têm parfocalidade: a Canon EF 17-40mm f 4L USM e a Canon EF 75-300mm f 4.0-5.6 USM III, são 2 exemplos disso.

Conclusão

Há muito mais a ser dito sobre as diferenças entre as lentes still e as lentes cine.

Em linhas gerais, contudo, estas são algumas das principais.

No geral, uma objetiva projetada para a fotografia, funciona bem na videografia e vice-versa. E existem filmes incríveis, filmados com lentes de câmeras fotográficas. Tudo depende do objetivo que se deseja obter e do impacto visual que se deseja dar ao resultado final.

Elias Praciano

— fã de séries, como "Love, Death & Robots", "Rick and Morty" e "Russian Doll". Gosta de criar imagens, direto da câmera, com o mínimo de pós-produção. Há vários anos o seu livro favorito é Neuromancer, de William Gibson.

1 Response

  1. Nossa, que matéria bem descrita, até um semi-leigo como eu compreendi o assunto!
    Parabéns pela clareza da informação!

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