Fotografia de rua com celular, pode?

Claro que sim! A fotografia de rua é uma das áreas da fotografia mais democráticas e, provavelmente, a menos exigente quanto a aplicação de técnicas ou emprego de equipamentos.

Eu uso o celular para fazer registros na rua e o considero suficiente em boa parte das vezes. Mas, como qualquer ferramenta, os celulares também tem limitações, das quais vamos falar neste post.

A ergonomia

Os celulares são geralmente pequenos, finos e cabem no bolso. Isso é indiscutível.

Contudo, para ter boa ergonomia, a ferramenta precisa (entre outras coisas) ter bom encaixe nas mãos e conforto para uso.

Neste sentido, o design dos smartphones evoluiu para ser um dispositivo adequado para visualização de conteúdo, nas mãos. Os projetos atuais, são voltados para interação com a tela — por voz ou por gestos.

Embora fino e pequeno, a ergonomia dos celulares é péssima para usar em sessões prolongadas de fotos ou vídeos — a menos que estejam sobre algum apoio, como um tripé.

Ficar alguns minutos, com os braços estendidos, para acompanhar uma cena é uma posição desconfortável.

Em qualquer posição que você use o celular para fazer um registro de foto ou vídeo, ele fica muito vulnerável a agressões. E pode ser facilmente arrancado das suas mãos, derrubado etc.

O celular é uma boa ferramenta para selecionar e editar as suas fotos. Mas pode não ser o ideal em certas situações de rua.

A discrição

Fotografar na linha da cintura é uma técnica frequentemente utilizada por fotógrafos de rua. A discrição para capturar uma cena de forma orgânica, é uma das justificativas.

Algumas câmeras permitem girar a tela, para você poder acompanhar o que está registrando. E isso é difícil fazer com o celular.

Na minha experiência, a cultura também tem seu papel aqui. Usualmente, sacar o celular no meio da rua para fotografar pessoas ou cenas genéricas, é visto como coisa de pervertido ou de turista.

Mulheres jogando volleyball na praia. Foto feita com a lente Canon EF 75-300mm.

Você provavelmente não vai ser incomodado, se for visto como um turista…

Por outro lado, a lente grande angular, da maioria dos celulares, obriga a se posicionar muito próximo da cena e, uma vez percebido, você pode perder a espontaneidade das pessoas.

A qualidade da imagem

A qualidade das imagens dos celulares mais baratos é adequada para as redes sociais e, até mesmo, para impressões.

Aparelhos com grande contagem de megapixels, podem ajudar a se distanciar do assunto a ser fotografado. Depois você recorta a imagem, dando um zoom digital.

Claro que existe um limite para os recortes, a partir do qual, a perda de qualidade começa a ser perceptível.

O smartphone engana tecnologicamente

Certa vez, saquei a minha Canon EOS 6D Mark II para fazer fotos de alguns monumentos ao redor de um quartel, em Fortaleza.

O problema é que eu estava dentro do quartel. E em poucos minutos fui cercado por alguns militares que (educadamente, vale dizer) perguntaram o que eu estava fotografando. Eu mostrei a eles os monumentos, que são públicos e podem ser vistos da rua. Só estava fotografando de um perspectiva diferente.

Já havia feito outras fotos, dos mesmos assuntos, com um smartphone outras vezes, sem que ninguém se incomodasse. Ou seja, imagino que “um espião” optaria tranquilamente por um celular de 100 megapixels, no lugar de uma full frame de 26 megapixels. Não sei por que as pessoas do quartel não pensaram nisso…

Dentro de instituições, contudo, o maior receio não é com a espionagem, mas com eventuais “jornalistas”, blogueiros ou vloggers (vulgo, youtubers), de alguma forma possam prejudicar a imagem da entidade.

Enfim, creio que por uma questão cultural, os smartphones se tornam invisíveis, na maioria das vezes.

Shopping centers, como lugares privados, têm suas próprias regras. Em alguns, você vai encontrar empecilhos — usualmente, algum segurança, querendo demonstrar autoridade — caso queira usar uma câmera dedicada. Eu nunca tive problemas deste tipo, mas já ouvi relatos de amigos dizendo que tiveram.

Nestes casos, os celulares são melhores. Mas fique atento às regras explícitas sobre fotografar no local e as respeite.

Eu não sou uma pessoa discreta

Para quem ainda não me viu pessoalmente, deixa eu me descrever: pareço um bicho galho, branco e fino (sim, sou educado)… Não tem como não chamar atenção aonde chego, por mais que eu deteste isso.

Casal dançando dentro de um bar, na praia.

Não sou de falar alto, no meio da rua, mas o meu sotaque — uma mistura dos vários lugares em que morei, mundo afora — chama a atenção.

Sou uma daquelas pessoas que, pela aparência física, não se encaixa em lugar algum — a menos que você conheça algum lugar no mundo, habitado por gente esquisita e, ao mesmo tempo, tímida.

Existe o lado bom e o ruim disso — que pode ser assunto para outro post. O fato é que, para a fotografia de rua, o argumento da discrição usualmente não funciona para mim.

Então é melhor aceitar que estou sendo visto e tentar sair da minha zona de conforto e interagir com as pessoas que estou fotografando.

Conclusão

Eu uso os dois.

Com o celular ou com a 50mm, procuro trabalhar a minha timidez e procurar me relacionar com o assunto a ser registrado e o ambiente ao redor.

Sob o ponto de vista de que são apenas ferramentas, gosto de usar a câmera dedicada para fazer as fotos e o celular para selecionar e editar.

Mas, enfim, tecnologicamente, o celular não tem qualquer limitação para fazer fotos na rua. Se você tiver dois, recomendo usar o mais barato e deixar o outro no bolso (ou em casa).

Elias Praciano

— fã de séries, como "Love, Death & Robots", "Rick and Morty" e "Russian Doll". Gosta de criar imagens, direto da câmera, com o mínimo de pós-produção. Há vários anos o seu livro favorito é Neuromancer, de William Gibson.

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