A nossa saúde mental na fotografia

A fotografia, como muitas outras profissões, pode ser estressante e, até mesmo, causar ansiedade. Seja no fotojornalismo, na publicidade, na fotografia de eventos, nos casamentos ou nos esportes.

Nestas áreas, profissionais estão sempre sob enorme pressão para entregar as melhores imagens, dentro de prazos muito curtos.

Alguns nichos muito romantizados, também têm seu “lado cinza”, como a fotografia de viagens, da vida selvagem ou de paisagens. Principalmente, quando envolvem viajar e passar longos dias longe e, muitas vezes, sozinha(o) — às vezes cobrindo as histórias dramáticas de outras pessoas e culturas.

Some a estes fatores, a natureza financeiramente precária do trabalho freelance. Muitos profissionais passaram por momentos extremamente difíceis durante a pandemia da Covid-19.

Segue trecho de um entrevista feita com as fotógrafas Anastasia Taylor-Lind e Tasneem Alsultan, para o podcast Shutterstories, publicado em Outubro/2020.

Diante dos novos desafios para o setor, como você tem passado, emocionalmente e financeiramente?

Fotógrafa Anastasia Taylor-Lind.

“Se eu não cuidar da minha saúde mental, não conseguirei fazer meu trabalho com eficácia”, revela Anastasia Taylor-Lind, fotojornalista sueca e baseada em Londres, que cobriu conflitos em todo o mundo para meios de comunicação internacionais e ONGs . “Sem autoconsciência e algum nível de estabilidade emocional e mental, não somos capazes de processar e recontar as histórias de outras pessoas.”

“Eu realmente não lidei bem com isso”, diz Tasneem Alsultan, com relação à epidemia. Ela prossegue, dizendo “especialmente no início, quando não tínhamos informações suficientes. Eu me sentia fisicamente esgotada e exausta a ponto de me preocupar constantemente de ter pegado Covid (…) nossos corpos estão intimamente ligados ao nosso estado emocional”.

“Estávamos passando por um lockdown, em função da pandemia, na Arábia Saudita”, afirma Tasneem, que é também embaixadora da Canon. “(…) todas as cidades estavam trancadas e isoladas. E eu [estava] na fronteira com a Arábia Saudita na província oriental, próximo da base do Exército dos EUA, durante a Guerra do Golfo. A situação me desencadeou emocionalmente, por que já vivi algo parecido na minha infância [quando o movimento era igualmente restrito]. Então, encontrei uma maneira de chegar até a capital, Riade, com apenas uma das minhas filhas, pensando na possibilidade de ter mais trabalho lá. Não deu certo e acabei ilhada em outra cidade estranha”.

Autorretrato da fotógrafa Tasneem Alsultan.

“Tentei lidar com isso ocupando a mente com assuntos diferentes da fotografia”, continua Tasneem. “Me apeguei tanto à câmera que, se não a estou segurando, me sinto carente. Por isso, comecei a ler sobre meditação, fui aprender a me acalmar e a ter mais consciência do que me cerca e me conectar com a minha própria família. Iniciei a fazer vídeos diariamente, com entrevistas, nas redes sociais, durante os primeiros três meses, o que me ajudou a sentir que tinha um propósito todo dia, quando acordava”.

Anastasia teve uma experiência parecida: “Quando a pandemia começou, todos os meus compromissos para os meses seguintes foram cancelados ou suspensos. Tive que me fazer um questionamento realmente difícil, que é: se não sou fotógrafa, quem sou eu?”

“E é claro que ser fotógrafa não é apenas sair pra tirar fotos, há muito mais trabalho a fazer, além disso. Então, no começo, fui fazer minhas declarações de impostos, atualizar e administrar meu site, para me ocupar. Também procurei pequenos prazeres, como andar a cavalo, cuidar do cachorrinho do meu irmão, fazer longas caminhadas. Também tenho praticado ioga e tenho buscado estar mais presente nos meus momentos”.

A incerteza do freelancer traz seu próprio estresse?

“Eu trato cada oferta de trabalho como, potencialmente, a última incumbência remunerada, afinal, nunca se sabe”, diz Anastasia.

“Quando estamos desenvolvendo projetos pessoais e atribuições consecutivas e não sabemos quando será nossa próxima tarefa, você nunca sente que pode recusar algo. Significa se acostumar a viver e trabalhar em um ambiente tão energético quanto dramático”.

“Recentemente, me conscientizei mais, refletindo sobre meu trabalho anterior”, diz Tasneem. “Sempre corria de uma tarefa a outra, de um projeto a outro. Percebi que não há problema em dizer que se está ansiosa, preocupada e não precisa estar sempre em uma zona de conflito para surtar, ter colapsos. E quanto mais eu tenho compartilhado isso com amigos, percebo que estamos todos no mesmo barco”.

O setor está ficando melhor em cuidar de seus fotógrafos freelance?

“Estou otimista e vejo mudanças lentas, porém seguras, em nosso setor”, relata Anastasia e completa, “o mito do fotógrafo, e especificamente do fotógrafo de guerra, como o herói trágico, prevalece em nossa indústria. Celebramos os riscos, idealizamos e glamorizamos a ideia de que, como artistas, temos que sofrer pelo ofício. À medida que o setor se afasta dessas narrativas tradicionais e se torna mais diversificado, vejo mais abertura.

Quanto mais digo: ‘Essas são as coisas com as quais tenho dificuldades’, mais ouço as pessoas dizerem: ‘Eu também.'”

“Em 2017, cobri a crise de Rohingya, em Bangladesh. Fui enviada pela Human Rights Watch para documentar e registrar as histórias de sobreviventes do massacre dentro dos campos de refugiados”, acrescenta. “E quando voltei, pela primeira vez na minha vida profissional, me ofereceram uma sessão de debriefing com um conselheiro. Isso me lembrou o quão cuidadosa preciso ser comigo mesma — mas também como é importante cuidar de mim mesma a serviço de ser fotógrafa. A obrigação é tanto profissional, como pessoal”.

Que conselho você daria aos fotógrafos ou videomakers que estão passando por dificuldades?

“Entenda que você não está sozinho”, diz Tasneem. “Ao expor algumas das suas vulnerabilidades, você poderá contar com a empatia das pessoas. Não temos que refazer os passos dos que vieram antes de nós, se não foram corretos.”

“Exercício”, diz Anastasia. “Use seu corpo para curar, acalmar e ajudar a sua mente. Para algumas pessoas, isso significa correr, fazer longas caminhadas ou praticar qualquer outro esporte — mas que seja algo que te envolva fisicamente, não intelectualmente”.

Há algo que você gostaria de ter feito diferente no passado?

“Falar com um terapeuta mais cedo”, diz Tasneem. “Na minha cultura, é muito embaraçoso admitir que se tem problemas emocionais. É algo de que as pessoas têm vergonha.”

“A mudança que eu quero ver”, diz Anastasia, “não é deixar os jovens fotógrafos descobrirem por si mesmos, mas criar uma comunidade fotográfica carinhosa, acolhedora e gentil, para não repetir o comportamento arriscado e prejudicial nos quais as gerações anteriores se envolveram, quando experimentaram o estresse e o trauma. Que estes hábitos não continuem a ser encorajados e repassados à próxima geração”.

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Referências

https://www.canon.pt/pro/stories/photographers-and-wellbeing/

https://www.canon-europe.com/pro/shutter-stories-podcast/

Site da Tasneem Alsultan: https://tasneemalsultan.com/

Site da Anastasia Taylor-Lind: https://www.anastasiataylorlind.com/

Elias Praciano

— fã de séries, como "Love, Death & Robots", "Rick and Morty" e "Russian Doll". Gosta de criar imagens, direto da câmera, com o mínimo de pós-produção. Há vários anos o seu livro favorito é Neuromancer, de William Gibson.

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