A ética na fotografia de rua

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A fotografia de rua é um dos gêneros mais populares, tanto amador quanto profissional.

Quando realizada, adequadamente, pode produzir peças de grande valor — sob o ponto de vista artístico, documental, político etc.

A fotografia de rua, pode ser usada para nos contar histórias sobre um momento em particular, sobre uma era e também provê uma janela direta para a condição humana.

Além do valor subjetivo da beleza, a fotografia de rua também é muito importante, sob vários ângulos de análise — incluindo o de seu valor documental.

Como qualquer atividade humana, contudo, a fotografia de rua também está sujeita a questionamentos — e muitos de natureza ética.

A fotografia de rua envolve a captura de momentos espontâneos, sinceros, usualmente sem que as pessoas saibam que estão sendo fotografadas.

O objetivo é obter retratos do quotidiano, o mais verdadeiro e despretensiosos possível.

A fotografia de rua tenta documentar o dia a dia das pessoas, das cidades da maneira mais franca possível. Portanto, não usual perguntar se as pessoas desejam ser fotografadas ou não.

Retratar as pessoas desta forma é totalmente legal, de acordo com as legislações de vários países.

Só que a ética, de certa forma, sempre transcende a moral e a lei.

A ausência do consentimento para a prática da fotografia de rua comumente enseja questões éticas: é moralmente legítimo registrar e, consequentemente, publicar imagens das pessoas, sem seu conhecimento ou consentimento?

A questão sempre desperta o meu interesse e ainda não tenho opinião solidamente formada — sob o ponto de vista do fotógrafo ou como curioso da filosofia.

É claro que “o que é ético ou não” varia muito de pessoa para pessoa.

Para algumas pessoas os limites estão um pouco mais próximos e para outras, podem ser flexibilizados.

Os argumentos em prol da fotografia de rua, são fortes e robustos — o que não quer dizer que não devam ser questionados.

Os argumentos

Até onde sei, há 4 linhas argumentativas que tendem a vir à tona, com mais frequência, durante a discussão:

  1. A prática está rigorosamente dentro da legalidade e as pessoas têm o direito de capturar imagens em locais públicos da maneira que quiserem.
  2. A fotografia de rua tem valor e importãncia para o registro histórico da humanidade (e da própria comunidade local). Ela é responsável por uma extensa documentação visual de lugares, pessoas e eventos, que estariam perdidos da história social se não fosse permitida.
  3. Fotografia de rua é arte. Muitas grandes obras de arte foram criadas a partir de imagens das pessoas nas ruas. Seria uma enorme perda cultural impedir que este trabalho seja feito.
  4. Não há necessidade de se preocupar com consentimento, quando se está trabalhando em espaço público — aonde não há expectativa de privacidade. Seria diferente, se entrassem no quintal de alguém e fizessem fotos através da janela. Não é este o caso. A fotografia de rua é o registro de eventos em locais públicos, visíveis a todos que estiverem passando pelo local.

Daqui, vamos quebrar em miúdos estes argumentos — inclusive contrapondo-os aonde fizer sentido.

Como sempre, sinta-se à vontade para comentar e expôr a sua maneira de ver as coisas.

Vamos analisar estes argumentos

Os 3 primeiros itens são, praticamente, indiscutíveis.

Na maioria dos países ocidentais, a fotografia de rua é permitida pela lei e não há como impedir a atividade, com base na legislação.

Em muitos países, este argumento se baseia na liberdade de expressão e tentar destruí-lo, pode causar danos severos a uma série de outras liberdades individuais e, até mesmo, à liberdade de imprensa.

Independente disso, aqui e ali, sabemos de pessoas que agiram errado, deliberadamente, através da fotografia de rua — expondo a intimidade de outras pessoas e criando situações desmoralizantes.

E isto está em discussão aqui, sem a menor dúvida.

Esta é uma das perguntas que martelam a cabeça de qualquer fotógrafo ético, nas ruas: até onde eu posso ir?!

Mesmo a produção de registro históricos pode envolver ações moralmente (e até mesmo ilegais) dúbias. Portanto, dizer que a nossa fotografia é uma arte, não diz nada sobre ser ética.

É alegável que produzir arte ou preservar a história social da comunidade é mais importante que a discussão sobre o que é moral, legal ou ético? Eu acredito que não e que nem tudo pode ser feito, a qualquer pretexto.

A arte não está acima da ética.

A arte não justifica comportamentos abusivos e que causem danos a outras pessoas — ou, até mesmo, a animais.

A questão da privacidade

O consentimento e o direito à privacidade são, provavelmente, as questões mais importantes aqui. É por isso que o argumento 4 ganhou um tópico exclusivo neste texto.

A ideia, de modo genérico, é de que não se trata de violação de privacidade, quando se registra algo que esteja ocorrendo em público.

De acordo com esta linha argumentativa, tirar uma foto de alguém sentado em um banco é o mesmo que simplesmente olhar para a pessoa — coisa que dezenas ou centenas de pessoas, que estejam passando pelo local, poderiam fazer.

É um bom argumento, mas eu não acredito que seja absoluto ou totalmente persuasivo. Vamos analisar melhor isso.

Na verdade, as pessoas continuam tendo direito a um certo nível de privacidade, mesmo quando estão em locais públicos.

Acredito que podemos concordar que se duas pessoas estiverem sentadas em um banco e nos aproximarmos o suficiente para poder ouvir o teor de uma conversa pessoal, estaríamos invadindo a sua privacidade.

Ou seja, é falso argumentar que “não dá para transgredir a privacidade das pessoas, se elas estiverem em público”.

No entanto, nem sempre ouvir uma conversa privada, por mero acaso, constitui invasão à privacidade de alguém. Isso acontece o tempo inteiro.

Constantemente, ouvimos um pai dando uma bronca no filho, um casal decidir sobre um prato na mesa ao lado, no restaurante, um trecho de uma chamada telefônica da pessoa à nossa frente — e nestas condições seria muito extenuante alguém nos acusar de quebrar sua privacidade. São situações corriqueiras e acidentais.

O mesmo não se aplica à fotografia?

Não pode haver ocasiões em que fazemos capturas de instantes, sem ter a intenção de adentrar a privacidade alheia?

Eu acredito que sim.

O problema é que é terrivelmente difícil identificar quais são estes momentos em uma análise apressada.

A fotografia não capta o que as pessoas estão conversando na rua. Neste caso, o desejo à privacidade pode estar ligado ao local pelo qual se está passando.

A pessoa que está saindo de um prédio comercial, após uma entrevista de emprego, pode ter uma justa expectativa de discrição, em relação ao seu atual empregador.

Ou a pessoa que está da casa de um relacionamento “proibido”, faz sentido que deseje estender a privacidade que tinha dentro da habitação às imediações, na rua.

O ponto é que não há maneiras de se determinar tal coisa, apenas olhando a cena — a menos que você conheça aquele detalhe da vida da pessoa. Não dá pra saber se você está prestes a registrar um momento moralmente ou eticamente problemático antes do clique.

Conclusão

Como qualquer assunto ético, a questão usualmente se recolhe ao foro íntimo — em que cada um decide quais são os limites da sua fotografia.

Alguns fotógrafos não fazem fotos de pessoas em situação precária ou indigna. Outros entendem que podem cumprir uma tarefa ao denunciar aquela situação. Qual é o seu objetivo, ao fazer a foto? É ganhar “likes” nas redes sociais, usando a situação de miserabilidade do outro? Ou é expor a miserabilidade da sociedade, que permite que um ser humano seja tratado de forma indigna?

Ao tirar fotos das pessoas, em uma manifestação, você está contribuindo para dar voz aos seus clamores ou estaria colaborando para expô-las às autoridades?!

Isto mostra o quanto é difícil silenciar as preocupações éticas que envolvem a fotografia de rua.

Não há argumento básico que torne aceitável, em qualquer situação, tirar fotos de estranhos. O que não significa que seja possível tornar a fotografia de rua algo moralmente repreensível.

De certa forma, pode ser razoável entendermos que qualquer imagem obtida sem o conhecimento da pessoa fotografada seja, até certo ponto, um desrespeito (guardadas as devidas proporções) à sua privacidade. Ainda que o fotógrafo se esforce no sentido de produzir fotos respeitosas e de bom gosto.

O que resta as(aos) fotógrafas(os) de rua é a escolha: ou tira a foto ou não tira.

Se optar por seguir em frente, viva com a possibilidade de que, apesar dos seus melhores esforços e de suas nobres intenções, seu trabalho sempre estará aberto a alguma censura moral.

Por acreditar que o assunto não se esgota tão facilmente, devemos voltar a ele, usando as tags fotografia de rua e ética, caso você ainda tenha interesse.

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Por Elias Praciano

— fã de séries, como "Love, Death & Robots", "Rick and Morty" e "Ray Donovan". Gosta de criar imagens, direto da câmera, com o mínimo de pós-produção. Há vários anos o seu livro favorito é Neuromancer, de William Gibson.

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