Por que as lentes Canon série L custam mais caro?

Canon EF Lens L series
publicado

Neste blog, costumo fazer comparações entre as objetivas da Canon quando têm a mesma distância focal.

Acredito que uma comparação ajuda a definir se precisamos, mesmo, percorrer todo o caminho para desembolsar o valor de uma objetiva da série L, quando a similar “não-L” já faz tudo o que precisamos.

Em um dos meus posts mais lidos, fiz uma comparação entre a Canon EF 24-105mm f/4L IS II USM e a Canon EF 24-105mm f/3.5-5.6 IS STM, aonde mostrei exatamente quais são os itens pelos quais você vai pagar a mais — além do fato de que elas têm diferenciais entre si e se destinam a mercados ou públicos diferentes.

Em tempo, a letra “L” que identifica a linha, na nomenclatura dos produtos, significa “luxury“, que pode ser traduzido por luxo, esplendor, magnificência etc.

O que são objetivas premium?

Cada marca, produtora de objetivas, oferece uma linha à parte, com um custo de aquisição mais alto, em função de uma série de fatores, que vamos abordar no decorrer deste artigo.

Desta forma, a Canon tem a “série L”, identificada pelo anel vermelho na parte da frente da lente.

A Sony tem a série “G Master”, identificada com um G dentro de um distintivo.

A Fujifilm, oferece a “XF line”, identificada com um pequeno distintivo vermelho — por isso, a linha é chamada informalmente de red badge.

A Nikon, introduziu a linha “S”, com o novo mount Z (mirrorless).

E a Zeiss tem a linha “Otus”, pra quem acha que toda linha de equipamentos ópticos da empresa não é premium o suficiente. 😉

Usualmente, o acréscimo de qualidade não chega a ser sequer perceptível para a grande maioria das pessoas.

Já, para as pessoas que conseguem perceber diferenças nos resultados e que tenham condições econômicas de fazer este upgrade, pode haver motivos para fazer uma aquisição.

Excelência na qualidade óptica

Canon RF 24-70mmf/2.8 L USM, com o hood montado na frente. Imagem: Canon USA.

Os recursos para atingir a excelência óptica são numerosos e variam em função da versão da lente e do que o projeto deseja para o equipamento.

Entre os recursos ópticos, listam-se os seguintes no site oficial, da Canon:

  • Blue Spectrum Refractive Optics — elementos ópticos refrativos que visam a conter as aberrações cromáticas.
  • O uso de elementos asféricos que se destinam a reduzir ou eliminar aberrações ópticas.
  • Possuem mais elementos de ultra-dispersão (UD, para reduzir as aberrações esféricas;
  • Cobertura SWC (SubWavelength Coating) e Cobertura ASC (Air Sphere Coating), com o objetivo de reduzir ghosting e flare.
  • Cobertura de flúor nos elementos de vidro externos, para repelir manchas de gordura, poeira e digitais — que vai contribuir para você não precisar limpar a sua lente o tempo todo.
  • Alguns elementos internos podem ter cobertura para minimizar reflexos e maximizar a passagem da luz.
  • Weather sealing — ou seja, proteção contra respingos de água e poeira.
  • São mais resistentes a impactos e projetados para uso profissional em todas as condições. Ou seja, durante a pressão do trabalho intenso, caso você derrube um equipamento destes, há uma boa probabilidade de continuar funcionando, permitindo que você consiga cumprir suas obrigações com seus clientes.
Weather sealing: A vedação é aplicada às seções de junção das lentes e aos painéis de interruptores para ajudar a evitar que entre água ou poeira. Imagem: Canon USA.

A localização das fábricas

Embora a maioria de seus produtos e peças sejam fabricados na Coreia do Sul, na China etc., a Canon mantém a fabricação das objetivas premium no Japão (Utsunomiya).

Fábrica da Canon, em Utsunomiya, Japão, aonde são fabricados os equipamentos de alto custo.

O mesmo, pode ser dito da Fujifilm (linha Red Badge) e da Nikon (S line) — que também preferem manter a manufatura de seus equipamentos high end perto da matriz e sob controle de qualidade mais rígido.

A Sony também tem a sua linha de lentes premium, a G Master. Mas, até a pouco tempo atrás, ela confiava esta linha exclusivamente à Zeiss, uma empresa alemã.

É justamente a localização das fábricas que as submete a leis trabalhistas menos frouxas e, com certeza, menos desumanas (principalmente na Alemanha).

Nem preciso dizer que as relações profissionais mais adequadas, a estabilidade no emprego e os melhores salários dos trabalhadores tem influência direta na qualidade final das objetivas topo de linha da sua marca preferida.

O elemento humano no processo de manufatura

Há um crescente processo de automação na indústria de câmeras e lentes.

O uso de robôs, comandados por softwares e algoritmos avançados, está progredindo massivamente neste setor.

Mas, quando falamos dos produtos da linha de luxo, boa parte do processo é manual.

O controle de qualidade repousa sobre equipamentos de precisão e pessoas altamente treinadas dentro da fábrica.

O polimento das lentes, a montagem e a inspeção de qualidade são fortemente controlados por pessoas, altamente treinadas.

Na Canon, um mestre de polimento de lentes de vidro, usadas nas objetivas de altíssimo desempenho, pode levar 2 décadas para ser formado.

Na Fujifilm, parte importante da inspeção do equipamento, envolve escutar o seu funcionamento atenciosamente, antes de permitir que siga para a próxima fase da montagem.

O controle humano sobre o encadeamento da produção tem forte impacto no limite máximo de itens que podem ser manufaturados dentro de um ano, ao mesmo tempo em que eleva a qualidade a um nível superior.

Os mimos que a empresa oferece

A Canon RF/EF 600mm f/4 L IS USM é acompanhada de uma mala ou bolsa sofisticada, para a sua proteção. O item, sozinho, pode custar de 640,00 a 1.100,00 dólares.

Não é muita coisa e não acredito que os itens extra tenham impacto significativo no preço final. De qualquer forma, vale a menção.

As lentes L costumam vir acompanhadas de “brindes” ou acessórios extra que, se somados os seus valores, podem ultrapassar os 150 dólares.

  • pára-sol ou lens hood, com 2 tipos de encaixe (normal e invertido), para facilitar o transporte da objetiva.
  • bolsa ou case, para guardar o equipamento em segurança durante o transporte. As lentes mais caras são vendidas dentro uma mala ultrarresistente para melhor proteção.
  • Em alguns casos, a Canon inclui no pacote um filtro de proteção, a ser encaixado no elemento frontal. A peça ajuda a completar o weather sealing, em lentes como a EF 17-40mm f/4 L USM.
Lens case ou bolsinha para carregar lentes menores com segurança.

Razões para adquirir uma objetiva da série L

Sob o ponto de vista profissional, há 2 variáveis ou fatores a serem levados em consideração:

  • ROI (Returno of Investment) – o retorno do investimento na aquisição do equipamento.
  • TCO (Total Cost of Ownership) – o custo total de propriedade. isto inclui, entre outras coisas, o seguro do equipamento.

Sem meias palavras, quem paga pelo seu equipamento e pela manutenção dele é a sua clientela. Portanto, se estão exigindo e pagando adequadamente pelo seu serviço premium, não há dúvidas de que você deveria adquirir ferramentas de nível superior.

Se você pratica a fotografia majoritariamente por hobby, como amador, tem “lastro financeiro” e sente que uma lente L pode te dar mais prazer na atividade, quem sou eu pra te dizer o contrário? 😉

Há outros 3 argumentos, que eu considero importantes, para a aquisição de uma objetiva de alto padrão:

  • equipamentos deste nível, como já foi comentado, são fabricados por profissionais que são valorizados e têm seus direitos trabalhistas respeitados.
  • A durabilidade das peças, também constitui um forte argumento ecológico. Se forem bem cuidadas, ao longo de toda a sua vida útil, podem ser repassadas entre dezenas de donos, por várias décadas, até que sejam descartadas e virem lixo.
  • Se você pretende comprar, cuidar e usar muito, ao longo de 10 anos, a relação custo/benefício de uma objetiva da série L pode ser muito compensadora.
Lente Canon EF 17-40mm f/4 L USM review

Quando você não deveria adquirir uma objetiva da série L

Se você está começando a sua jornada na fotografia ou na videografia, fazer este gasto também é totalmente injustificado.

O upgrade só se fundamenta depois que você tiver esgotado todas as possibilidades das lentes do kit. Sem ter o conhecimento, advindo desta jornada, você dificilmente conseguirá obter tudo o que uma objetiva da série L tem para oferecer.

Para ter um bom desempenho na Fórmula 1, um piloto precisa passar pelo Kart e por várias outras categorias do automobilismo. Não existe atalho para certas coisas.

Me deixe explicar melhor: se você não passou pelor karting, se não investiu alguns anos da sua vida na Fórmula Renault, na Fórmula 3 e no GP2… dificilmente vai saber o que fazer dentro de um carro de Fórmula 1.

A qualidade extraordinária dos violinos Stradivarius é inegável, mas a imensa maioria dos violinistas não saberia tirar proveito de uma peça rara como esta — bem como 99,9% do público não saberia distinguir os sons destes instrumentos dos outros “normais”.

Grosso modo, é dinheiro jogado fora.

Novamente, sob a perspectiva profissional, se os seus clientes não estão pagando o suficiente para você fazer este gasto, não faça!

Clientes capazes de enxergar diferenças no trabalho feito com uma ou outra ferramenta, são raríssimos.

A ordem das coisas é a seguinte: primeiro você começa a trabalhar e a receber da clientela de alto nível. Depois, você faz o upgrade do seu equipamento.

Se você fotografa para expor nas redes sociais, leve em conta a quantidade massiva de compressão dos algoritmos das plataformas, que impõem significantes perdas de qualidade às suas imagens. Infelizmente, série L pode fazer muito pouco por você.

Por fim, as outras objetivas também têm boa qualidade e são também itens de grande durabilidade (se forem bem cuidados,óbvio). Portanto, se não sofrerem impactos e nem a ação dos elementos do clima, não há nada que impeça a sua longevidade por décadas.

Conclusão

Guardadas as devidas proporções, a aquisição de uma objetiva da linha premium, da sua marca favorita, equivale a comprar um relógio Rolex ou um Patek Philippe.

Propaganda dos relógios Patek Philippe: “Na verdade, você nunca possui um Patek Philippe. Você apenas cuida dele para a próxima geração.”

Podemos resumir suas características da seguinte forma:

  • São equipamentos feitos de material raro ou de difícil obtenção
  • Seu processo de fabricação é intransigente com as falhas
  • O controle de qualidade é superior em todos os sentidos
  • O pessoal envolvido na produção tem formação e expertise difíceis de conseguir
  • Os profissionais desde as salas de projetos até o chão da fábrica são mais bem pagos e bem tratados
  • São itens feitos para durar, mesmo sob as condições mais severas de uso
  • Além de você, pouquíssimas pessoas perceberão que se trata de um item caro e de valor significante.

Como fotógrafo, não sou um maluco por nitidez ou detalhes ínfimos nas imagens. Não ligo para vinhetas ou eventuais distorções — que, geralmente, podem ser corrigidas dentro da câmera ou usadas de forma criativa.

Mas me preocupo com a durabilidade do equipamento e esta é uma das respostas que a série L oferece aos seus clientes.

Finalmente, se não for para deixar a objetiva em cima de uma estante, pegando poeira, com certeza vale a pena fazer o esforço para adquirir a que você quer.

Se inscreva no site para receber as atualizações:

Por Elias Praciano

— fã de séries, como "Love, Death & Robots", "Rick and Morty" e "Ray Donovan". Gosta de criar imagens, direto da câmera, com o mínimo de pós-produção. Há vários anos o seu livro favorito é Neuromancer, de William Gibson.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.