Conheça Micah Lee, o hacker indicado por Edward Snowden para garantir a segurança de seus arquivos.

Edward Snowden escolheu o advogado e jornalista estadunidense, Glenn Greenwald para guardar e trazer a público uma coletânea de documentos que comprovam uma série de ações ilegais ou antiéticas da NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA).
Greenwald, radicado no Brasil, autor do livro No Place to Hide, trouxe à luz a série de acusações de Edward Snowden contra a NSA.
book no place to hide glenn greenwald
Em janeiro de 2014, o hacker Micah Lee, expressou sua preocupação com a segurança do computador do jornalista Glenn Greenwald, bem como dos importantes documentos, armazenados nele.
O sistema poderia ser invadido pela NSA ou qualquer outro possível espião — que poderiam apagar ou comprometer seriamente seus arquivos.
O jornalista Greenwald tem sido um alvo constante e, àquela época, estava muito vulnerável.

Glenn Greenwald está no topo da lista de 10 pessoas que receberam dezenas de milhares de documentos ultrassecretos, do ex-empregado da NSA, Edward Snowden.

Ainda que Greenwald tenha tomado várias precauções para lidar, com segurança, com os documentos da NSA, seu computador ainda poderia ser hackeado.
“Glenn não é especialista em segurança e não é um grande nerd da computação (…) Ele é basicamente um usuário comum de computadores e, normalmente, usuários comuns de computadores são vulneráveis”, explica Micah Lee.

Quem é Micah Lee?

Aos 28 anos, Lee foi o tecnologista contratado em novembro/2013 para garantir que Greenwald e os funcionários da First Look Media adotassem medidas de segurança do estado-da-arte ao manipular os documentos da NSA, ao trocar e-mails e ao participar de chats online — sempre que envolvessem informações confidenciais.
A First Look é uma iniciativa de outubro de 2013, com o comprometimento do fundador da eBay, Pierre Omydiar, de financiar um novo site de mídia, liderado por Greenwald, com os(as) jornalistas documentaristas Laura Poitras e Jeremy Scahill.
Essencialmente, Lee é o guarda-costas digital da First Look ou, nas palavras de Greenwald, “a principal mente” por trás das operações de segurança.
Esta é uma posição rara no mundo da mídia. Contudo, vivemos em um mundo de vazamento de segredos e de repressão governamental contra fontes jornalísticas, o que está levando as empresas de notícias a tratar de fortalecer suas fronteiras digitais e, portanto, a contratar gente como ele.
Micah Lee profile
É uma tendência. E, segundo Trevor Timm, da Freedom of the Press Foundation, os vazamentos de Snowden transformaram questões de segurança digital em questões de liberdade de imprensa — não dá pra ser jornalista e não se preocupar com cibersegurança.

Cabe ressaltar que a “paranoia” dos jornalistas em relação aos governos precisa, às vezes, ser redobrada, quando se trata de investigar as megacorporações — nos dias de hoje, não é raro um conglomerado corporativo ter um ou mais governos “no bolso”.
“Organizações de mídia não podem mais se dar ao luxo de ignorar que têm que proteger seus jornalistas, suas fontes e, inclusive, seus leitores”, afirma Timm. “Toda organização precisa ter um Micah Lee em seu time”, complementa.

… os vazamentos de Snowden transformaram questões de segurança digital em questões de liberdade de imprensa — não dá pra ser jornalista e não se preocupar com cibersegurança.

A viagem para o Brasil

Uma vez contratado, Micah precisou se deslocar, imediatamente, para o Brasil. A First Look tem um escritório em New York, mas Greenwald mora e trabalha aqui, na periferia do Rio de Janeiro.
Infelizmente, o consulado do Brasil, em San Francisco, perto de onde Lee mora, não tinha disponibilidade imediata em sua agenda para conceder-lhe o visto — o que atrasaria em mais de 2 meses a possibilidade de ele viajar.
Determinado, Micah criou um script (legal, é importante que se diga) que constantemente, varria os agendamentos no calendário do consulado, tentando encontrar cancelamentos — em menos de 48 horas, houve uma ocorrência, que Lee aproveitou. E, em poucos dias, embarcou para o Rio.
Ao chegar à cidade, Lee passou um dia inteiro a reforçar a segurança no computador de Greenwald — que ainda estava usando o Windows 8.

O trabalho de Lee, no computador de Greenwald

Entre as preocupações do hacker, estava a possibilidade de que agências de espionagem invadissem o computador de Glenn Grenwald.
Portanto, ele trocou o sistema operacional por GNU/Linux e instalou um firewall, encriptou o disco e instalou uma série de softwares para torná-lo mais seguro.
No dia seguinte, Lee teve a chance de fazer algo com o que ele já estava sonhando há tempos: dar uma olhada nos tão falados documentos confidenciais, “ultrassecretos” da NSA, que Snowden havia entregado a Greenwald, em Hong Kong.
Desde o começo, Greenwald tinha guardado os arquivos em um computador totalmente desconectado da Internet, prática conhecida como air-gapped, por hackers.
Inicialmente, Lee usou softwares projetados para policiais e investigadores particulares para fuçar entre os documentos.

Trocar o sistema operacional Windows 8 por GNU/Linux, foi uma das primeiras medidas do especialista em segurança digital.

Dentro da casa, cheia de cachorros de Greenwald, Lee dispendeu horas a ler e analisar dúzias de documentos contendo segredos, antes, cuidadosamente guardados.
Ele conta que não se surpreendeu — na verdade, os documentos continham evidências de fatos que ele já conhecia ou tinha desconfianças a respeito. Ali estavam as provas.
Durante sua estadia de 2 dias no Rio, Lee vestiu dois “chapéus”: o de guarda-costas digital, que torna computadores seguros contra hackers e espiões e o de especialista técnico que ajuda repórteres a entender a complexidade dos documentos da NSA.

Os estudos e seus primeiros trabalhos

Para Greenwald, não só as habilidades de Lee, mas o seu background político o tornam o cara perfeito para o trabalho — Lee é, há muito tempo, um ativista.
“há muitos hackers espertos, programadores e gente muito qualificada em computação” – afirma Greenwald, “mas o que o distingue dos outros é este seu perfil político realmente sofisticado, em que os valores corretos guiam o seu trabalho.”

J. P. Barlow, fundador da Electronic Frontier Foundation, onde Lee já trabalhou, concorda. Há dois Lees: o ativista e o hacker, ele afirma. Um não existiria sem o outro.

Micah adquiriu suas habilidades técnicas a serviço do seu ativismo, de acordo com Barlow.
Quando era estudante na Universidade de Boston, em 2005, ele se envolveu a luta pelo meio ambiente e com o ativismo contra a guerra do Iraque. Sua experiência na faculdade não durou muito — após um ano, ele saiu para exercer o ativismo integralmente.
“Eu tinha coisas melhores a fazer com o meu tempo do que ir à faculdade, uma vez que eu queria parar a guerra. Mas isto não foi possível”, ele admite.
No decorrer deste tempo, trabalhou como web designer freelancer, embora não tivesse formação acadêmica em computação — ele aprendeu sozinho linguagem C++, quando tinha entre 14 e 15 anos, para fazer videogames.
Em 2011, Lee foi contratado para trabalhar na Electronic Frontier Foundation, organização em defesa dos direitos digitais. Segundo ele, era o trabalho de seus sonhos.
Se sentiu bem como tecnólogo e professor de segurança digital e criptografia para novatos.

Lee e a criptografia

Como CTO (diretor técnico) na Freedom of the Press Foundation, ele ajudou a organizar as “cryptoparties”, onde se ensinavam jornalistas e ativistas a usar ferramentas de encriptação.
Lee passou a ser procurado por jornalistas que desejassem conhecer mais sobre segurança e criptografia.
Ele lembra de ter sido a pessoa que ajudou os repórteres e jornalistas da NBC a começar a usar criptografia — quando a rede NBC News publicou uma série de histórias baseadas nos documentos de Snowden, com a contribuição de Glenn Greenwald, foi quando Lee se deu conta de por que precisavam de seus conselhos.
No começo de Julho, 2013, ele escreveu o que alguns consideram o melhor texto introdutório sobre criptografia — um documento chamado “Encryption Works“. Seu título foi inspirado em uma entrevista anterior dada por Snowden, ao site do The Guardian.
Na entrevista, Edward Snowden afirmara
“A criptografia funciona. Sistemas fortes de criptografia, se implementados apropriadamente, são algumas das poucas coisas nas quais você pode confiar”
Estas palavras tiveram um efeito profundo em Lee — “isto me deu bastante esperança, por que eu não tinha certeza de que a criptografia realmente funcionasse”
Enfim, este é Micah Lee, um hacker de verdade, com conhecimento profundo em criptografia e segurança, mas com algo a mais — dotado de uma consciência política, com coragem para exercer seu ativismo e a defesa de suas idéias e, segundo Greenwald, é um daqueles geeks que conseguem explicar conceitos extremamente complicados de forma fácil de entender.

Fonte: http://mashable.com/2014/05/27/micah-lee-greenwald-snowden/?utm_cid=mash-com-Tw-main-link.